'Regadores naturais': Estudo revela papel oculto das bromélias para fertilização de florestas
Chupa-Chupa (Aechmea nudicaulis) zamoner_maristela / iNaturalist Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou um...
Chupa-Chupa (Aechmea nudicaulis) zamoner_maristela / iNaturalist Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou uma função ecológica até então desconhecida das bromélias. A pesquisa mostra que, mesmo vivendo no alto das árvores e longe do chão, essas plantas ajudam a fertilizar o solo e impulsionam o crescimento de vegetações mais exigentes em nutrientes, ampliando a diversidade da floresta. 📱 Receba mais conteúdos sobre a natureza no WhatsApp O trabalho, publicado na revista científica Plant and Soil, analisou as chamadas bromélias-tanque epífitas. Comuns nas copas das árvores, essas espécies são conhecidas por acumularem água entre as folhas. Esses reservatórios naturais, no entanto, concentram também detritos orgânicos, como restos de folhas e pequenos animais. Os cientistas observaram que, quando os tanques transbordam durante as chuvas, a água rica em nutrientes escorre pelo tronco até o solo, criando pequenas áreas de alta fertilidade sob os galhos. “Demonstramos que há um fluxo de nutrientes do tanque das bromélias para plantas jovens no solo e que esse aporte afeta diretamente o crescimento dessas plantas”, explicouTháles Pereira, primeiro autor do estudo. Veja mais notícias do Terra da Gente: VÍDEO: Cerca 'educativa' reduz ataques de onças em 83% e vira aliada de fazendeiros no Pantanal ALERTA: Microplásticos de glitter do Carnaval são encontrados em praia do RJ 8 meses após a festa DISPUTA: Vídeo mostra dois sapos 'lutando' pela mesma fêmea; disputa pode ser fatal Impacto no crescimento Aechmea recurvata Arthuro Garcia/ iNaturalist Em experimentos controlados, mudas de caroba (Jacaranda puberula) irrigadas com a água proveniente das bromélias cresceram significativamente mais do que aquelas que receberam apenas água da chuva. As análises laboratoriais indicaram que as folhas dessas plantas apresentaram 35% mais potássio, 36% mais fósforo e quase o dobro do número de folhas. Além disso, registraram menores concentrações de manganês, um elemento que pode ser tóxico para o vegetal se absorvido em excesso. Veja o que é destaque no g1: Veja os vídeos que estão em alta no g1 Segundo os pesquisadores, o efeito é especialmente relevante em florestas tropicais, onde os solos costumam ser pobres em minerais essenciais. “Em muitas florestas tropicais, o fósforo é o principal nutriente limitante para o crescimento vegetal. E ele aparece em concentrações dezenas de vezes maiores na água acumulada nos tanques das bromélias do que na água da chuva”, afirmou Pereira. Interação remota Gravatá-Águia (Aechmea aquilega) leojales / iNaturalist A conexão entre as bromélias da copa e a vegetação rasteira levou os cientistas a descreverem um novo tipo de relação ecológica, batizada de “interação remota entre plantas”. O conceito define as trocas biológicas que ocorrem sem contato físico direto ou compartilhamento do mesmo substrato (terra). O estudo de campo foi realizado em áreas de mata de restinga no Núcleo Picinguaba, em Ubatuba (SP), dentro do Parque Estadual da Serra do Mar. Para confirmar a origem dos nutrientes, os cientistas marcaram detritos orgânicos com um tipo raro de nitrogênio e os depositaram nos tanques das bromélias. Posteriormente, acompanharam a absorção desse elemento pelas mudas cultivadas em casa de vegetação, em Campinas. As análises confirmaram que a água acumulada nas plantas apresentava concentrações muito superiores de nutrientes essenciais — como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre — em comparação com a água pluvial simples. Embora esse enriquecimento do solo possa, em teoria, reduzir o crescimento de algumas espécies adaptadas a ambientes muito pobres, os pesquisadores destacam que o saldo geral é positivo para o ecossistema. “Mostramos como um fator biótico local, dada sua abundância e características únicas, pode promover a heterogeneidade de recursos e a diversidade funcional de plantas em manchas específicas do solo, favorecendo a diversidade em maiores escalas”, concluiu Tháles Pereira. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente